quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Rita Apoena

A Rita Apoena é uma escritora que, um tempo atrás, tinha um blog (ou um tumblr, não lembro direito), e eu não sei por que ela excluiu, não sabia dela até então. Eu "descobri" ela mexendo nos favoritos antigos, se eu podia achar alguma coisa boa lá e tal. Uma página sobre ela no site 'Pensador' já estava lá (eu devo ter visto um dia qualquer, salvado pra ver depois e ter esquecido). E, a partir daí, eu fiquei um bom tempo lendo o que achava dela na internet. Até que ela criou outro blog, mas excluiu esses dias, e também não sei o motivo. Bom, o fato é que o que temos dela na internet já mostra que ela escreve MUITO. Essa é a página do facebook: https://www.facebook.com/jornaldospequenos e aqui alguns dos textos que eu mais gosto:


 "Pode até parecer que sim, mas o meu mundo não é cor-de-rosa. A minha alegria brota das coisas tristes que eu vejo ao redor. Quando Mãinha não tem o que dar de comer aos filhos, mas divide um grão de arroz, com bom coração. Quando o ladrão me assalta, mas divide o meu dinheiro comigo. Quando o moço me estende o dedo do meio e me faz recordar brincadeiras de criança. Assim é a minha alegria! É quando o feio do mundo tenta, mais que tudo! Apesar de tudo! Parir um instante de beleza e é esse instante, que na próxima fração de segundo escapará da minha câmera, que me comove e me arrebata, como se eu abrisse os braços e acolhesse o mundo: um bichinho ferido, carente de amor. E isso é maior que tudo, mais lindo que tudo, muito mais lindo do que se o mundo fosse perfeito."


"Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. E encontrar os pássaros: há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas. "


“Não é que o mundo seja só ruim e triste. É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais. Quando uma pena flutua no ar por oito segundos, ou a menina abraça o seu melhor amigo, nenhum jornalista escreve a respeito. Só os poetas o fazem. "

"Mas a poeira é só a vontade que o chão tem de voar."

 "Quando eu era pequenina e espiava o mundo pelas grades do portão, via sempre um véinho passando, gritando: Ói algodão! Um dia, resolvi sair e pegar a fila das crianças. Fiquei esperando o véinho transformar açúcar em nuvens, açúcar em mágica, em pedaços de carinho. Quando ficou pronto, mal podia acreditar! Peguei o algodão nos dedos e perna-pra-te-catar! Lá de longe, o véinho gritou: Ô Ritinha, mas e o dinheeeeeeiro, Ritinha? Eu virei e respondi: Não, vô! Num precisa de dinheiro, não! Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão! O véinho deu risada e logo respondeu: É mesmo, né Ritinha? Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão!"



"O regador é só uma mentira de chuva que eu tenho de contar às flores todas as manhãs."


"Instruções para se apaixonar 

Encha o peito com mais de trezentos suspiros,

quando estiver bem levinho,

solte as amarras
e flutue."

"Sobre as folhas de jornal é mais rápido. Se a lágrima cai espessa, atravessa cinco páginas de uma vez só: na primeira, alaga uma cidade na Índia; na outra, molha a mão do correligionário; depois precipita-se tímida sobre a região central; goteja, quase imperceptível, sobre os lábios da moça à espera do carro-pipa; e indo, por último, pingar num pequenino i da palavra fim." - Rita Apoena - Queda Livre

"No fim de uma tarde, o avô percebeu:
- Ô Miguel, não fica assim não, menino! Parece que ocê tá sempre querendo chorar, que tem o zóio com o cheiro da chuva. Então, não sabia que as lágrima evapora e depois vira nuve?
- Não, vô, eu não sabia, não…
- Pois repare, menino: e é por isso que um dia chove!
Mas Miguel, que não gostava da chuva fazendo lama no quintal, decidiu se esconder ainda mais da menininha tristeza. E ficou deitado, dentro da caixa de papelão, esperando a noite chegar. "


"Quando voltar do trabalho, olhe para cima e repare: no meio dos prédios, altos, frios e cinzentos todos os postes de luz, com seus fios adormecem de mãos dadas. "

"Mas se eu ficar triste, só triste, eu serei mais uma a aumentar as tristezas no mundo. E a tristeza só consegue nos deixar fracos e inertes. O que o mundo precisa é de um exército de gente feliz, capaz de doar um pouco de si e do que sabe, capaz de fazer a diferença na vida de algumas pessoas. Meus braços não são do tamanho do mundo, mas foram feitos no tamanho exato de abraçar alguém. "
"Sobre o agora
Vivo tão intensamente o momento presente
que quase chego atrasada ao momento seguinte. "

 "Deitada na grama, o céu empoeirado de estrelas. Passei o dedo e - curioso - algumas vieram grudadas na ponta. Olhei para cima e assoprei. Foi tanta estrela caindo que agora eu mal consigo enxergar de tanta esperança."

"Quando você vai embora de nós
o pronome parte-se ao meio
você diz que só leva o s
e o que adianta?
se comigo sobra o nó
na garganta."


"Existe essa alegria, e eu não posso evitá-la, pois são poucos os gestos permitidos,se você reparar; não podemos desperdiçar um que seja. Então, muitas vezes, eu preciso de um fone de ouvido para ouvir a minha alegria bem alto sem incomodar o vizinho. É algo inédito, mas agora existe isso na minha vida.Então, eu me sento ali no cantinho e sou feliz,escancaradamente sem motivo!"

 "Sugestões para presente:
 

Amor. Bolinhas de sabão. O som de copos com água. O som das gotas no chão. Um sorriso tímido. A música por trás dos ruídos. Um coração encostado no outro. Um ou dois para sempres. Um avião nas mãos de um menino. Um barquinho de papel. Uma pipa atravessando as nuvens. Uma sementeira de tulipas. Um mingauzinho de aveia. Um par de meias listradas. Dois ou três cata-ventos. Uma palavra inventada. "

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